21/06/2008
Que vença a melhor fonte energética

O mercado pode decidir qual é a melhor fonte de energia. O engenheiro Franklin Palheiros, leitor assíduo do nosso blog, fez uma proposta simples e ousada para decidir a disputa pelo melhor caminho energético para o Brasil.
Eis o que sugere Franklin:

“Visto que no Brasil não há concorrente (em termos de custo e emissão de gás carbônico) para as grandes hidrelétricas, o governo brasileiro deveria criar dois leilões somente:

“1. Leilão para hidros. Com isso teríamos de 85% a 95% da nossa matriz limpa, renovável e sem emissão de carbono

“2 Leilão para "outras". Independente da fonte energética (sol, vento, urânio, gás, carvão, óleo, etc). Deixem que elas briguem entre si para ver quem consegue ser a melhor alternativa para épocas de seca dos reservatórios.

“E privatiza tudo! Quem quiser se aventurar (seja nas térmicas, eólicas ou etc.), que coloque o próprio dinheiro - para a menor tarifa a ser definida nesse segundo leilão.”

Franklin sugere que o investidor deve arcar com o descomissionamento da usina (que é o desativamento no fim da vida útil), as multas contratuais por falta de geração e os tratamento de rejeitos. O investidor também deve definir uma área a ser reflorestada para compensar o gás carbônico emitido, ou pagar U$ 46 por tonelada.

(Alexandre Mansur)

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22/06/2008

Um fã improvável da energia hidrelétrica

O canadense Patrick Moore se tornou “persona non grata” entre os ambientalistas. Na década de 1970, sua carreira na área começou bem promissora: ele foi um dos fundadores do Greenpeace, a organização ambiental que se tornaria uma das mais influentes do mundo. Mas, em 1986, Moore deixou o Greenpeace alegando discordâncias ideológicas. Ele diz que a organização não tem conhecimento para falar com propriedade sobre os assuntos que defende – porque seus líderes não seriam cientistas.

Formado em Biologia Florestal pela Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, onde também cursou o pós-doutorado, Moore abriu sua própria consultoria, a Greenspirit Strategies, e passou a trabalhar com indústrias e governos. Os ambientalistas, porém, não ficaram nenhum um pouco contentes quando ele começou a defender alimentos transgênicos e energia nuclear – que seria uma opção para frear o aquecimento global porque emite menos gás carbônico que fontes fósseis. Hoje, Moore é pago pela associação das indústrias nucleares dos Estados Unidos para explicar para os americanos as vantagens desse tipo de energia.

Mesmo defendendo a energia nuclear como solução para nos salvar do aquecimento global, Moore disse em entrevista a ÉPOCA que, se tivesse de escolher um só tipo de energia para um país, escolheria a hidrelétrica. Perguntado sobre a opção brasileira em investir em uma nova usina nuclear, Angra 3, apesar de todo o potencial hidrelétrico do país, ele respondeu:

“No geral, eu acho que a energia hidrelétrica é a melhor forma de eletricidade: é renovável, você pode ligar e desligar facilmente e por isso dá para acompanhar a necessidade energética do país. Há muito benefícios que a fazem desejável. Por outro lado, também é bom ter um mix de tecnologias no sistema elétrico. Não é bom ter só uma tecnologia. Mas, se eu tivesse que ter só uma, eu escolheria a hidrelétrica.”


Nos Estados Unidos, os ambientalistas atacam Moore, chamando-o de lobista da indústria nuclear (título que ele recusa veementemente). Lobista ou não, não é que até ele é fã de energia hidrelétrica?

Veja a íntegra da entrevista com Patrick Moore na revista “Época” desta semana


(Marcela Buscato)

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23/06/2008
Carcará



Esse carcará voando sobre uma cerca em São José dos Campos é uma das belas imagens do blog de
Márcio Prado, motanhista e educador ambiental.

"Ainda muito criança, minha mãe me estimulava muito em relação a paisagens, animais, plantas, rios, etc", conta Márcio no blog Educom Verde de Débora Menezes. "Meus pais cresceram na roça e ao menos uma vez por mês íamos para sítios na região de Campinas, visitar os familiares de minha mãe. Acho que comecei a desenvolver a necessidade de vida ao ar livre nesta época, quando minhas aventuras eram ir pescar e nadar em rios e lagos, andar por matas e plantações e me entusiasmar nos encontros com a vida silvestre."

(Alexandre Mansur)

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24/06/2008
O BNDES ficou mais verde

As torneirinhas que abastecem o setor privado de crédito para seus empreendimentos exigem cada vez mais cuidados ambientais. Alguns bancos privados condicionam seus empréstimos a cláusulas ambientais (
confira entrevista com Fábio Barbosa, presidente do Banco Real). Agora, essas regras também ficaram mais rígidas no maior financiador de todos, o BNDES.

Hoje, o presidente do banco, Luciano Coutinho, explicou que a instituição vai adotar uma cláusula de exigências ambientais e sociais. Ela detalha que as empresas não podem ter nenhum tipo de complicação social, como denúncias de trabalho infantil, indícios de mão-de-obra em condições degradantes ou práticas discriminatórias. Também não podem ter problemas com as agências de meio ambiente. “Se alguma entidade pública levantar alguma objeção à empresa, o BNDES cancela o processo de empréstimo”, disse Coutinho. Além disso, ele afirmou que, se alguma punição por infração ambiental ou social tiver um julgamento definitivo contra alguma empresa com empréstimo do banco, o fim do contrato será antecipado.

As regras mais rígidas vão fazer diferença até mesmo na execução dos grandes projetos, como obras do PAC, que o BNDES financia. “Já sabemos que os grandes projetos, como obras de infra-estrutura ou pólos industriais, podem provocar grandes impactos sociais e ambientais na área de seu entorno”, disse Coutinho. “E é menos oneroso preveni-los do que tentar remediá-los depois”.

Coutinho fez os anúncios em um discurso durante o almoço do evento Encontro de Presidentes, um seminário com os principais líderes empresariais do país e os ministros da área social, promovido pelo Insituto Ethos. O encontro está acontecendo agora, em São Paulo.

Na foto acima, obra da hidrelétrica de Campos Novos, entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A usina, em parte financiada pelo BNDES, tem impacto na Mata Atlântica local e nos rios da região. Seu estudo de impacto ambiental foi bastante questionado. Será que uma história como essa se repetiria nos novos projetos, até mesmo na Amazônia?

(Alexandre Mansur)

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25/06/2008
A salada vem do telhado

Quer umas verduras? Vá buscar lá no telhado. O estudante Marcos Vitorino, da Faculdade Cantareira, está desenvolvendo um projeto de hortas sobre telhas em espaços pouco valorizados da metrópole, como lajes, quintais e terrenos de imóveis comerciais e residenciais. As horas foram plantadas no Colégio Jardim São Paulo, na Zona Norte, e no próprio campus da Faculdade Cantareira, no bairro do Belém, ambos na capital paulista.

A produção da horta do colégio tem a participação dos alunos do ensino fundamental, e vai direto para a merenda das crianças. A primeira colheita da horta da faculdade deve acontecer entre esta semana e a semana que vem, e também está prevista para ser consumida localmente. Esse é um dos benefícios: os vegetais vão direto da terra para o prato.

Quanto custa implantar uma horta no alto de um prédio ou casa? O método da produção nas telhas pode ser adaptado a qualquer espaço, desde que haja incidência de sol. As telhas da foto, por exemplo, têm quatro metros de comprimento, e cada uma custa em torno de R$ 150. Uma telha de um metro custa menos da metade desse preço. Fora isso, há ainda o custo com terra e sementes, normalmente encontradas a um preço acessível.

O que barateia a horta suspensa é que a própria telha garante uma impermeabilização adequada, até porque é feita para isso mesmo. O escoamento de água é feito diretamente para uma calha ou ralo que já exista no local.

(Alexandre Mansur)

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25/06/2008
O destino das baleias está em jogo



Começa hoje e vai até sexta-feira a 60ª reunião da Comissão Baleeira Internacional (CBI), no Chile. Na pauta deste ano estão a criação dos santuários Atlântico Sul e Pacífico Sul e a proibição da caça científica de baleias. Ativistas de direitos dos animais querem ampliar o debate demonstrando dados sobre o lado comercial da caça aborígene na Groenlândia e fazendo lobby para que a proibição da caça comercial de baleias seja adotada por todos os países. Hoje, alguns países como o Japão mantém a caça.

“Como não há uma forma humanitária de se matar uma baleia no mar, nós somos contra qualquer decisão que sancione a matança de baleias”, diz a britânica Claire Bass, da Sociedade Mundial para Proteção Animal (WSPA). “Os métodos usados ainda são cruéis e as baleias sofrem com isso.”
A foto da baleia corcunda acima é de Bryant Austin.
(Alexandre Mansur)

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25/06/2008
Quem vai comer o boi pirata?

“Os bois apreendidos na floresta vão virar recurso do programa Fome Zero”. A frase já virou um mantra entoado pelo ministro do Meio Ambiente Carlos Minc durante suas entrevistas. A medida até parece estar indo adiante. Já foram apreendidos 3100 bois em uma reserva florestal, no Pará, e nas próximas semanas serão embargadas mais 10 mil cabeças, em Rondônia. Esse gado vai ser leiloado e o dinheiro, segundo Minc, será usado para aplacar a fome do país. O acordo para o repasse foi firmado no início do mês.

Mas nem toda verba arrecadada com os leilões vai realmente ser destinada para o Fome Zero. Apenas parte do dinheiro vai chegar ao programa. A outra parte será aplicada em ações de fiscalização e, principalmente, para pagar o transporte do gado das fazendas onde foi detectado o desmatamento ilegal. Afinal, retirar bois de regiões onde as estradas são horríveis custa dinheiro e alguém vai ter que pagar a conta. Outro fato que está distante dos discursos do ministro é que o dinheiro que chegar ao Fome Zero volta para a Amazônia. A verba será destinada para comunidades ribeirinhas e reservas extrativistas da região. Mas ninguém sabe explicar ainda como esse dinheiro vai aplicado. O grande churrasco ecológico parece ser mais uma metáfora ministerial. Quem estiver esperando para ver as famílias famintas comendo a carne de boi pirata, como Minc se refere ao rebanho ilegal, pode sentar e esperar.

(Juliana Arini)

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26/06/2008
Os pingüins gostam de nossas praias



Todo inverno, as pessoas nas praias da região Sudeste se surpreendem com a chegada de pingüins. Parece que os bichos, típicos da Antártida ou da Patagônia, se perderam e foram parar em alguma praia tropical. Na terça passada, cinco pingüins foram encontrados no litoral do Rio. Foram resgatados em alto mar por pescadores entre Cabo Frio e Búzios e em praias de Niterói.

O que as pessoas não imaginam é que esses pingüins não estão perdidos. Ao contrário. Eles freqüentam nossas praias regularmente. É o que conta a bióloga Claudia Vega Ruiz, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio.

Época: As pessoas sempre se surpreendem no inverno ao encontrar pinguins nas praias do Sudeste. Por que eles chegam aqui? Eles estão perdidos ou é a área natural deles?
Claudia: Eles não estão perdidos. A região norte do litoral do Rio é parte da distribuição natural deles. É uma migração que já foi comprovada. Eles vêm nadando com as correntes marinhas, em busca de alimento. Nessas águas, comem principalmente lulas.

Época: De ondem eles vêm?
Claudia: Os pingüins vêm do sul do continente. Principalmente da Península de Valdes, na Argentina. É lá que está uma das maiores colônias de reprodução da espécie.

Época: Esses pinguins que vem parar nas praias do Rio de Janeiro e outras da região precisam de cuidados? A gente deve botá-los no freezer?
Claudia: Não podemos colocá-los no freezer porque eles morrem de hipotermia. Eles vivem em águas frias e podem suportar temperaturas baixas porque tem uma camada grossa de gordura sob a pele que funciona como isolante térmico. Mas os pingüins que chegam no Rio percorreram uma distância muito grande. Passaram por um grande desgaste energético. E essa capa de gordura foi consumida na viagem. O melhor a fazer, se o animal não tem nenhuma ferida aparente, é deixar o pingüim na praia para ele continuar seu percurso natural. Para que ele continua caçando seu peixe ou lula.

Época: Você está pesquisando a concentração metais pesados no corpo de alguns pinguins que encalham. Que pinguins são esses?
Claudia: São carcaças de pingüins que chegam durante o inverno na Região dos Lagos, no litoral do Rio. Eles são encontrados mortos. A causa da morte é desconhecida. Mas pode ser devido ao cansaço e o desgaste físico do animal durante a migração. Isso também é parte do fenômeno natural. Já foi registrado que 45% dos pingüins jovens morrem nessa fase de procura por alimentos.

Época: O que o estudo de concentração de metais pesados revela?
Claudia: Os pingüins que chegam o Rio têm concentrações de cádmio e mercúrio no fígado. Esses contaminantes podem vir de fontes naturais ou poluição provocada pelo homem. Para definir isso, será preciso fazermos mais estudos.

Época: A presença de metais pesados no corpo dos pinguins que nadam até aqui significa que os peixes pescados nessa região também estariam contaminados?
Claudia: Sim. Os metais entram nos organismos dos bichos por meio da dieta. Ou seja, o alimento desses pingüins, que são os peixes e as lulas, têm concentrações desses metais.

A foto acima é do biólogo Ignacio Moreno.

(Alexandre Mansur)

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26/06/2008

Só no discurso

A agência de comunicação Havas Digital fez uma pesquisa on-line com mais de 11.000 entrevistados, em 200 países – entre eles Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e China –, para descobrir o que os consumidores pensam sobre seu papel na preservação do meio ambiente.

De acordo com a pesquisa, 80% dos entrevistados foram considerados “Atentos” (entendem as mudanças climáticas e estão preocupados com as conseqüências no nível pessoal) ou “Engajados” (prestam muita atenção no assunto e estão apreensivos com os impactos locais).

O Brasil seria o país em que as pessoas estão mais preocupadas com as mudanças climáticas e, por isso, dispostas a mudar de atitude. Entre os brasileiros, 58% declararam estar mais inclinados a comprar produtos ecologicamente corretos nos próximos 12 meses. Mas, quando o assunto é o bolso, apenas 38% dos brasileiros entrevistados se disseram dispostos a pagar um pouco a mais por esses bens – apesar de 91% deles terem dito preferir comprar de empresas que estão tentando reduzir sua contribuição para o aquecimento global.

Se alguém ainda tinha alguma dúvida, a pesquisa confirmou que preservar o meio ambiente é uma questão de sobrevivência para as empresas. Mas, por outro lado, mostrou que para a maior parte dos consumidores as boas intenções ficam só no discurso. Você paga mais por produtos que preservem o meio ambiente?

(Marcela Buscato)

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26/06/2008
Aquecimento global vai custar o dobro

Os governos vão gastar no mínimo 2% do PIB mundial no combate às mudanças climáticas. O aumento do número de secas, furacões e inundações serão as principais causas dessas perdas financeiras. O anúncio foi feito por Nicolas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial. Ele foi o autor de um estudo encomendado pelo governo inglês sobre as conseqüências das mudanças climáticas na economia global. Em 2006, quando o relatório foi publicado, empresas e governos de países industrializados ficaram alarmados com a possibilidade de gastar 1% do PIB mundial por causa das alterações no clima do planeta. Na quarta-feira Stern fez um alerta pior. Em uma entrevista ao jornal inglês The Guardian, ele afirmou que os gastos mínimos com o aquecimento global vão representar o dobro do previsto no relatório de dois anos atrás.

A aceleração dos efeitos das mudanças climáticas foi a justificativa para a mudança nas estimativas. A falta de cumprimento das metas de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global seria a principal causa dessa aceleração.

Stern tambem propôs uma solução drástica. Os EUA e o Reino Unido devem cortar 80% de suas emissões até 2050. Fato improvável em uma realidade onde as nações ricas não conseguem reduzir nem 5% das emissões acordados na Conferência Mundial do Clima. Para tentar contornar o problema, políticos ingleses divulgaram que pretendem criar um novo imposto ambiental. O foco deve ser os combustíveis fósseis – gasolina e diesel – usados para abastecer veículos. Uma má notícia para um momento de alto no preço do petróleo.

(Juliana Arini)

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Alexandre Mansur
Editor de Ciência & Tecnologia da revista Época. Cobre meio ambiente há 16 anos. Já ganhou alguns prêmios, como o Reuters-IUCN Media Award. Diz que está preocupado com o aquecimento global, mas só quer salvar a praia de Ipanema.
 

Luciana Vicária

A repórter da ÉPOCA já enfrentou lacraias venenosas na Amazônia. Adora animais, mas já matou um peixe beta (ela jura que foi sem querer!). Há um ano, usa caixas de papelão no lugar das sacolas de plástico no supermercado.
 
Juliana Arini
A mato-grossense Juliana Arini cobre meio ambiente há 12 anos. Já trabalhou para ONGs, como o WWF, e produziu reportagens para a National Geographic. Tenta convencer os paulistas a parar de comer hambúrguer para salvar a Amazônia.
 
Marcela Buscato
Repórter da revista ÉPOCA. Não pisa em nenhum terreno off-road sem seu salto agulha. Tem medo do aquecimento global, mas não gosta dos ecochatos.
 
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